Reprodução na íntegra de matéria de Sérgio Faraco, publicada em sua coluna do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, RS, no dia 27 de setembro de 2006.
MALANDRAGEM À INGLESA
Joe Davis foi campeão mundial de snooker por 14 anos consecutivos, de 1927 a 1940. Em condições de igualdade, isto é, sem dar pontos de vantagem, apenas uma vez foi derrotado, naturalmente por alguém que o conhecia muito bem: seu irmão Fred. Na Inglaterra, gozava de um prestígio como o de Pelé no Brasil. Sempre que aparecia em algum lugar era aplaudido, fosse num restaurante ou na sala de espera de um cinema.
Aos 75 anos, ele publicou suas memórias, The breaks came my way, relato generoso que não se cinge à sua inigualável carreira e, além de evocar a história de grandes jogadores contemporâneos, tanto de snooker como de bilhar, narra bem-humorados episódios que testemunhou ou de que foi protagonista.
Um deles é a célebre partida de bilhar entre o neozelandês Clark McConachy, que possuía uma técnica muito apurada no aproveitamento da bola vermelha, e o inglês Tom Reece. O Rei George V estava na platéia. Antes de dar a saída, Reece segredou ao adversário:
- Lembre-se de que o rei detesta jogadas de bola vermelha. Se eu fosse você, jogava de outro modo.
O neozelandês evitou essa jogada e mesmo assim estava ganhando. Em desespero, Reece passou a usar a bola vermelha e, a duras penas, conseguiu vencer. McConachy ficou chocado e cobrou:
- Você disse que o rei detestava jogadas de bola vermelha.
- De fato - assentiu Reece. - E acaso você não viu a cara feia que ele fazia pra mim?
Outra e saborosa peripécia teve lugar no Houldsworth Hall, em Manchester, onde Davis compareceu para uma exibição de seu snooker. Ao final, quando já guardava o taco, aproximou-se um sorridente senhor, que o desafiou para uma única partida, valendo cinco libras.
Davis tinha certeza de que derrotaria facilmente um desconhecido e não aceitou a proposta, mas o outro insistiu tanto que ele acabou cedendo, um pouco por desfastio e outro tanto porque 5 libras, afinal, eram um bom dinheiro, e se alguém fazia tanta questão de ver-se livre delas não era o caso de ficar empinando o nariz. O desafiante era um Jogador de padrão médio. Davis lhe permitiu dar duas ou três tacadas e, em escassos minutos, limpou a mesa. Ao receber o valor da aposta, o campeão, intrigado, quis saber por que o outro estava jogando fora seu dinheiro. Ainda sorrindo, o homem respondeu:
- Não se preocupe. É que hoje de manhã, no trem, eu disse a um amigo que estava vindo a Houldsworth Hall para jogar com o grande Joe Davis. Ele não acreditou e apostamos 10 libras. Em suma, você ganhou 5 libras e eu também.Sergio Faraco, natural de Alegrete, RS, e residente em Porto Alegre, é praticante do nosso esporte e importante e destacado escritor brasileiro, com dezenas de livros editados no Brasil e no exterior (http://pessoal.portoweb.com.br/sergiofaraco/ - sergio.faraco@zerohora.com.br), entre eles o livro “Snooker: tudo sobre a sinuca”, em parceria com Paulo Dirceu Dias.
PDDias